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Ser madrasta. E ser padrasto. E ser tanto. - Por Ruth Manus

Em nossas pesquisas e viagens pela internet, revistas e jornais, encontramos relatos do cotidiano, com seus recortes e retratos, que nos tocam. Esse aqui me tocou em especial, porque sou madrasta e aprendi muito na construção dessa relação de amor. O texto é de Ruth Manus, advogada, professora universitária, blogueira e colunista do Estado de São Paulo. Olha que lindo.
Beijo, Vivi

Madrasta é aquilo que a gente nunca planejou ser.

Planejamos, quando criança, ser sereia, ser aeromoça, ser mãe, ser jogadora de futebol, ser tia, ser presidente da República ou astronauta. Mas madrasta não. Madrasta nunca esteve nos planos.

Mas a vida é assim mesmo, cheia de curvas que nos levam a lugares inesperados. Lugares lindos, mas ainda assim desconhecidos e cheio de sombras, cavernas e dúvidas. E o posto de madrasta é um dos lugares desconhecidos mais incertos no qual a gente já esteve.

Ser madrasta – e também padrasto – é contar com presunção inicial desfavorável. A mãe, o pai, os avós, os tios, todos são presumidos como bons, como fonte de amor e de sorte. Só se pensará o contrário se eles fizerem algo de errado. Já a madrasta e o padrasto fazem o caminho oposto. São presumidos como ameaça, como fonte de insegurança, poço de dúvidas. E terão que remar contra a corrente para provar que são bons e que merecem alguma credibilidade.

E você, que sempre teve certeza de ser a pessoa mais bacana possível, se vê nessa estranha posição de haver dúvidas a seu respeito, para as quais você nunca contribuiu. De repente você já não é visto como aquilo que sempre teve certeza de ser.

Ser madrasta é dar banho. É tirar os verdinhos da comida. É ter pacote de bolacha aberto na bolsa. É ser acordada às 8 da manhã no sábado. É limpar bumbum. É buscar na escola. Fazer lição de casa. Esquentar o leite, esfriar a sopa. É segurar no colo. É fazer praticamente tudo (ou tudo) o que os pais fazem, com a consciência de que você nunca vai usufruir da incondicionalidade da qual eles usufruem.

Alguns de nós já contam com certas regalias. Ser convidado para as festas da escola. Receber um abraço no dia das mães ou do dia dos pais. Aparecer nos desenhos da família que eles fazem na escola. Outros não. Outros fazem tudo o que os pais fazem, mas seguem numa posição um pouco marginal, como se fossem bons o bastante para algumas coisas, mas não para outras. Definitivamente não é fácil.

Ser madrasta é se apaixonar e se entregar para uma pessoinha que talvez nunca seja nossa. É ter que ser chata como os pais e nunca poder ter a leveza de uma tia, nem de uma avó. É ter que medir as palavras para dar uma bronca que os pais podem dar sem pensar duas vezes. É ter um certo medo do futuro, de não saber se nosso amor seguirá sendo correspondido. E mesmo assim seguir amando.

Na verdade isso nunca esteve nos planos de ninguém. Nem da mãe, nem do pai, nem da criança, nem da madrasta, nem do padrasto. Ninguém contava com isso no início. Mas esses rumos estranhos da vida nos colocaram aqui por alguma razão. E todos temos que aprender a lidar com isso, especialmente pelo bem das crianças.

É preciso ter força, ter maturidade e, frequentemente, colocar nossos interesses em segundo lugar. Mães e madrastas não podem ser concorrentes, pais e padrastos não podem ser inimigos. Somos adultos demais para isso. Todos temos nossas inseguranças, mas elas não podem ser maiores que o nosso interesse de dar uma vida feliz e equilibrada aos pequenos (às vezes já não tão pequenos).

Ser madrasta é ser muito. É tentar ser o melhor possível. Tentar não invadir o espaço alheio e ao mesmo tempo tentar demarcar o nosso. É cuidar com algum medo, caminhar com algumas dúvidas. É brigar diariamente com os estereótipos, é sofrer com os modelos Disney de madrastas. É uma corda bamba muitas vezes ingrata. Ser madrasta nunca esteve nos planos, mas o inesperado por vezes traz grandes presentes. E não há presente maior do que olhar para eles e perceber que, entre trancos e barrancos, a gente construiu uma relação de amor.

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